Cada cérebro, uma aprendizagem: a inclusão escolar como direito e não um favor

Julho 11, 2019
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Julho 11, 2019 Core

Acho importante contar como vim parar aqui. Porque considero legítimo o questionamento de educadores em relação a falas de pessoas que nunca estiveram à frente de uma sala de aula, então penso que me apresentar é um ato de respeito.

Entrei na área da educação desarmada. Era uma mãe buscando respostas para um filho que não aprendia e que ouviu de uma professora do início do Fundamental I – que tinha mestrado em Educação Especial – que ela rasgaria seu diploma se ele fosse capaz de acompanhar uma escola regular. Ela estava tão perdida quanto eu. Porém aquela era uma resposta que eu não podia aceitar.

Decidi que precisava saber algumas coisas por mim mesma. Além de mãe, era também uma pediatra apaixonada por desenvolvimento infantil e uma pessoa que acreditava na educação. Aí começou minha jornada na neurociência e no mundo da aprendizagem. Tive a sorte de ter ao meu lado uma equipe pedagógica que encarou o desafio comigo e que aceitou implementar as estratégias que ajudassem meu filho a aprender. Foi a mesma equipe que anos depois comemorou com a gente quando ele foi aprovado na USP duas vezes na mesma semana (pelo ENEM e pela Fuvest) para o curso que escolheu.

Mas não estou aqui para contar história de superação. Cada caso é um caso. Ver com meus próprios olhos a importância de se compreender diferentes estilos de aprendizagem foi só o ponto de partida. Precisava saber o que acontecia com as crianças com as mais diversas dificuldades e como poderíamos ajudá-las. Estudei muito, frequentei ambulatórios de transtornos de aprendizagem, fiz especialização em psiquiatria infantil e passei a trabalhar com crianças neurodiversas. Me envolvi de verdade com o processo de inclusão escolar delas e conheci de perto as barreiras que enfrentavam. Foi ficando cada vez mais claro para mim a necessidade de revermos alguns dos dogmas do nosso sistema educacional. Nossas crianças pagam um preço alto demais pelo engessamento e mecanização do ensino.

Hoje vejo que a neurologia tem muito a contribuir com os professores: afinal, eles estão lidando diretamente com o cérebro humano e suas infinitas possibilidades. Por isso a palavra inclusão ainda provoca arrepios por aí. Como é possível ensinar crianças tão diferentes numa mesma sala de aula? Bom, a verdade é que quando implementamos estratégias que favorecem crianças com determinadas dificuldades, TODOS os alunos são beneficiados. No dia em que conseguirmos desconstruir conceitos ultrapassados de práticas em sala de aula e entender a função dos suportes pedagógicos, deixaremos até de chamar a isso de inclusão.

Raquel Guimarães Del Monde – Médica pela USP Ribeirão Preto. Fez residência em Pediatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM – Unicamp). Especialista em Pediatria pela Associação Médica Brasileira e Sociedade Brasileira de Pediatria. Especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência (FCM – Unicamp). É Diretora do Núcleo Conexão, grupo multidisciplinar de avaliação e intervenção em transtornos de aprendizagem, desenvolvimento e autismo. Autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”.

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