Relatos de um sobrevivente: precisamos falar sobre saúde mental nas universidades

Julho 8, 2019
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Julho 8, 2019 Core
Eu sinto que a Escola de Economia de São Paulo me torturou até a depressão. Realmente cheguei a pensar em desistir de tudo, o que até hoje me dá um friozinho na barriga. Sempre tive certa simpatia por economia e um amor incondicional por educação de modo que seria no mínimo irônico que eu sucumbisse nas mãos do ensino econômico.
Minha discordância com o curso de economia da EESP vem de muito cedo. Na verdade, mesmo de antes de sermos apresentados. Sabe aquelas coisas na vida que, de uma maneira didática e quase artística, conseguem incorporar perfeitamente tudo aquilo que você considera que existe de negativo e injusto no mundo? Pois então, a EESP pra mim era esse lugar: meu próprio inferno na terra.
E pra ser justo com a missão deles: auto-disciplina (a capacidade de negar coisas irrelevantes, descartáveis e das quais não dependemos) é realmente algo essencial para o aprendizado, mas tudo tem o seu limite. Quer dizer, uma coisa é evitar uma festa na semana anterior às provas por consciência dos custos que essa ação incorreria. Outra é não encontrar com nenhum amigo ao longo do semestre por medo (ainda que possivelmente irracional) das consequências na faculdade. Uma ainda pior e mais elucidativa é quando não se consegue deixar de pensar sobre a faculdade mesmo durante a madrugada; a mente, incessante, vai se deteriorando e a pessoa percebe a própria saúde desaparecendo, mas esta há muito tempo deixou de ser a prioridade, porque o objetivo é se formar.
O problema na EESP foi exigir tanto dos alunos ao ponto de resultar em autonegação destrutiva: ao sentir a água batendo no pescoço muitas vezes me desesperei e comecei a afundar ao invés de lembrar como se faz para boiar. Apesar de ter engolido mais do que queria, acabei me livrando desse pesadelo. Infelizmente, não são poucos os amigos que acabaram se afogando. E seria inocência acreditar que a tragédia é apenas metafórica: algo morreu dentro de cada um deles e é possível que tenha se perdido para sempre inclusive em mim mesmo.

Felipe Proença – é fundador da Sociedade dos Economistas Marginais e Educador Reinventor CORE. Filho de professora apaixonado por educação: estudou e lecionou em diversas instituições de Ensino enquanto defendia os interesses dos alunos em cargos como o de representante de Economia e de Administração Pública na FGV. Passou por organizações como Simbiose Social (prêmio folha de empreendimento social de 2018), Instituto Ayrton Senna, e hoje ensina Matemática em escolas públicas da Zona Sul. Prêmio de Inovação e Contribuição Social em 2016 pelo projeto EESP Ensina: aulas de Economia para o ensino Médio. Áreas de Pesquisa: Filosofia da Justiça, Design de Mecanismos e Economia Comportamental.

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