Quieta e vibrante

Junho 29, 2019 Helenice Schiavon Helenice Schiavon

Alguns são os dias em que percebo a escola como um território do absurdo,  por onde os saberes  circulam sem fazer caso de quem lá está.   Nestes dias, pelos corredores,  parece que vejo os estudantes mais sorridentes, ruidosos, agitados nos corpos… Atribuo seus comportamentos a uma espécie de resistência pacífica,  uma resiliência esperta;  sintoma talvez  da indiferença secular que persiste exalar do  mobiliário, do sinal que marca os 50 minutos de aula, os 20 de recreio, tantas vezes do currículo aprisionado em grades…

Entretanto, muitos também são os dias em  que vejo a escola quieta e vibrante. Nestas ocasiões,  seus  corredores estão praticamente vazios, as portas fechadas como que para reter ali todo o saber e não o deixar escapar pelas frestas. Atribuo essa vibração calada a uma espécie de mágica,  sintoma de sinergias secretas, repleta de intenções que não se deixam  aprisionar a custo nenhum.

Talvez seja difícil imaginar estas cenas e, por este motivo, farei você  ver com os olhos:

A semana anterior fora corrida e talvez tenha sido por isso que eu tenha entrado na sala de aula tão desatenta, preocupada mais com o futuro do que com o presente. Propus então aos alunos que,  para adiantar e agilizar um projeto que iniciáramos, apenas as garotas deveriam trabalhar nele naquele dia. Enquanto isso, os meninos poderiam adiantar alguns exercícios que seriam cobrados  para a próxima semana. Julgava, assim, que aplicar  o triplo filtro de Aristóteles (que sempre recorro quando tenho que tomar decisões) seria suficiente. Por isso, não hesitei e me perguntei: esta decisão (de dividir a turma em duas, com a intenção de otimizar o trabalho) “é útil, é boa, é  justa”? A resposta era precisa: sim! Por este motivo, segui no propósito : meninas trabalhariam no projeto  (para o qual tinham demonstrado engajamento),  enquanto meninos fariam os exercícios – e isto  lhes tiraria a sobrecarga de fazer o longo exercício em casa, durante o feriado. Pensei que, assim, todos se manteriam focados, ocupados e satisfeitos.

Ao final do período,  bem pertinho da hora de ir embora, chega até mim uma folha de  papel; entregue de maneira reverente por um colega de profissão.  Ele me disse: “os meninos pediram que eu entregasse este documento a você”… (Referia-se à  classe para a qual propus a divisão de trabalho). Ele continuou, com toda a calma que costuma lhe ser peculiar… “Já lhe adianto: parece que têm uma queixa e um pedido a fazer…”.

Paralisei. Diferentemente de meu colega de profissão,  minha ansiedade tem ansiedades, confesso. Sem abrir aquilo que parecia ser mesmo uma cartinha, olhei em volta… Será  que não os encontro ainda por aqui? O que será que querem me dizer? Pensei ver um aluno escondido entre as plantas. Não.  Não era…

É  bom que você saiba que eu sou assim mesmo. Sinto quando as coisas vão bem, e, sobretudo, quando algo vai mal. E aquilo não ia bem, eu sentia.

Controlando a ansiedade, resolvi enfrentar o que quer que estivesse por vir, e abri a cartinha. Estava escrita em letra caprichada, caneta preta, sem rasuras. Bati os olhos do começo ao fim da carta encontrei um único erro de ortografia – não consegui evitar o olhar crítico, de professora. Comecei a ler:

Era uma carta respeitosa, e falava em nome dos meninos. Queixavam-se de não terem tido a opção de escolher entre adiantar o projeto ou o exercício. Manifestavam, com sinceridade e equilíbrio,  o desejo de participar do projeto e deixar a tarefa de casa para casa. Quase no rodapé da folha vinham os nomes.

Fiquei imaginando-os pensando nos termos da carta. Escolhendo quem a iria redigir. Remoendo as palavras, organizando as ideias,  retirando um trecho, acrescentando outro… Invocando o triplo filtro de Aristóteles  (muitas vezes já falei dele na sala de aula)… Escolhendo quem a iria entregar ao professor ( rindo sozinha em pensar que algo de útil teria ficado da semana anterior quando discutíramos o valor da “representatividade”)…

Fiquei por todo o final de semana  a pensar em suas dores e fraquezas, nos sentimentos que experimentaram e os impulsionaram a escrever a carta.  Constatei que dali vinha também uma força gigantesca; impossível de ser negligenciada. Digna de ser reverenciada.

Demorou muito para chegar a segunda feira. Um século e meio para chegar a terceira aula… Mas quando a hora veio, fui a primeira a ocupar a sala. Tão logo  chegaram todos, apressei-me a fechar a porta. Não deixaria por nada aquele saber sair pelas frestas.

Quem estivesse nos corredores veria a escola quieta.

Quieta e vibrante.

Helenice Schiavon – Professora, graduada em letras e em pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

 

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