PALAVRAS EM CARNE VIVA

Abril 30, 2019
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Abril 30, 2019 Core

PALAVRAS EM CARNE VIVA

Ainda que em ficção, três mil cartas de amor – nunca lidas – foram escritas (1). Ainda que na vida real, personagens salvaram-se da solidão batendo com os nós dos dedos nas paredes (2); numa conversa miúda e necessária.

 

É para isso que o alfabeto se presta: dar vida às palavras. Mal sabe ele que, se estas não estiverem em narrativas, nada serão. A palavra solta formada desse alfabeto ingênuo, quando dita apenas de repente – como resposta ou reação – de nada serve. É preciso que as palavras se deem em histórias, mergulhadas e confundidas com o narrador; “como a mão do oleiro na argila do vaso” (3).

 

Não me surpreende que teimemos em escrever ou dizer palavras soltas. Elas correm fácil no papel, geram impacto na rede social, orgulho e sensação de dever cumprido no post compartilhado e um respiro heróico depois daquele comentário escrito às pressas, sem revisão. As palavras também voam alto quando saem das bocas… Nem dão tempo para que possamos estar com elas – fugindo para um lugar onde não se pode amá-las nem odiá-las. Às vezes, até as esquecemos.

 

Por esta razão, como professora que sou, relutei tanto em escrever sobre aquilo que alguém resumiu ser, com palavras rasgadas, “o massacre” de Suzano. Não sou adepta da palavra pequena, que nasce seca e igual, que resume e que informa. Sou fã da palavra cúmplice, da palavra criança, da palavra poderosa. Foi por isso que, até outro dia, não escrevi uma linha sequer sobre Suzano. Confesso que falei, sim, algumas poucas palavras durante o fatídico dia… Ainda bem que elas voaram.

 

Hoje, passados vários dias do ocorrido, ainda não estou preparada para falar e permitir que minhas palavras voem incompletas e irresponsáveis. Preciso delas pertinho de mim, para revisá-las, repensá-las, medi-las. Não confio nas palavras que vão ao vento. Nem nas minhas. Mas tanto pensei que, acabei achando que, finalmente, poderia me arriscar a escrevê-las. Não sem antes amarrar meu peito. Não sem antes me preencher de medo e tristeza… Por um momento, me pego imaginando o rosto de meu filho ou do meu aluno pintado no muro da escola – presente ou castigo? – para depois, na semana seguinte, ser coberto de tinta azul – castigo ou presente? Não… Palavras e signos – verbais e não verbais – não podem ser jogados ao vento! Não se pode arriscar a jogá-las assim, sob o risco de que alguém as possa pegar para si, de forma desavisada e doida (ou doída). Eis aí porque hesitei tanto em escrever sobre isso. Muito provável é que, se posso falar a que ponto arde uma dor, é porque ela arde bem pouco (4).

 

Conclui, então, que se fosse para escrever sobre Suzano, deveria fazê-lo com “a mão do oleiro na argila do vaso”. Nesse caso, acredito que as palavras possíveis de serem escritas deveriam vir de narrativas. E seriam histórias que não vivi, ocorridas num lugar em que nunca fui, num momento em que nunca estive… Num tempo que não foi aquele – o do “massacre”. E então, aquele dia talvez nunca fosse narrado – nem em ficção. As palavras viriam do dia (ou da semana) anterior; da festa de natal, do dia do campeonato escolar, da saída didática, da véspera da prova… Da quadra, da reunião com os pais, do bazar beneficiente, do corredor, do banheiro feminino… Ainda que fosse na escola (pois, como professora, passo boas horas por lá), aquelas narrativas não seriam de luto, nem de indignação e muito menos de dor. Seriam histórias vividas pelos corredores ou na sala de aula. E as palavras, agora viriam casuais, íntimas, verdadeiras e lindas: “Ciao, Caio!”; “Claiton, você pode me ajudar aqui?”; “Douglas… Vai Corinthians!”; “Me ensina o exercício 4 , Kaio?”; “Marilena, será que na nossa biblioteca tem o livro que o Samuel ilustrou?”; “Onde está nossa “inspetora-mãe”, a Eliane?”…

 

E, para as narrativas feitas entre as quatro paredes da sala de aula, nenhuma ausência seria marcada: nem para Adna, nem para o Anderson, muito menos para a Beatriz, para o Jenifer e para o José… Nem para os “Leos”… Nem mesmo para a Letícia ou para o Murilo! Nestas narrativas todos estariam lá, representados por todas as letras do alfabeto que iniciariam seus nomes e, é claro, desenhando – com a alegria de sempre – os seus lindos futuros.

Sou a mão do oleiro na argila do vaso…

 

Assusta-me muito as palavras soltas, rasgadas, incompletas; que não estão em histórias de amor nem de liberdade. Estas sim são adequadas a eles, os estudantes. Assustam-me as palavras que interrompem as histórias e que vêm seguidas de ponto final. Apesar disso, como professora que conhece tão bem os espaços e tempos da escola, sei que, a despeito de minhas incompletudes, há também aqueles que podem dar melhor consistência às palavras – inclusive às tais que já nascem enlutadas; ainda que estas nunca sejam suficientes ou dadas no tempo correto… Eu, da minha parte, devo dizer, sem orgulho, que me desacostumei de falar palavras que não sejam celebradas. E assim, na sala de aula, fico sempre com aquelas que colocam lado a lado o respeito e o bullying; a ética e a carteira riscada; a resiliência e a chacota; o pensamento e a ação. Confesso, ainda sou incapaz de dizer todo tipo de palavras.

 

Não obstante, apesar de saber que deve haver palavras mais corajosas, é bom que se diga que minhas palavras poderiam estar naquelas cartas de amor e também naquelas conversas miúdas e sigilosas; entre os toques de dedos na parede caiada … Pois que minhas palavras – tão despreparadas – ainda assim – não deixam de ser as do oleiro com a mão na argila do vaso.

 

Referência ao enredo de “Amor em tempos do cólera”, de Gabriel Garcia Marques.

Referência ao texto “Celebração da voz humana/2”, Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano.

Referência às notas de Walter Benjamin.

Referência aos “Ensaios”, de Michael de Montaigne; capítulo II, “Da Tristeza”.

 

Helenice Schiavon – Professora, graduada em letras e em pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

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