Março 12, 2019 Core


A sala de aula é um mundo. Por esse motivo, poder-se-ia imaginar que, ao entrarmos nela, seria bom sempre portar um mapa. Nesse caso, nós o deitaríamos sobre a mesa, de onde seria muito fácil analisar – antes mesmo da aula começar –  cada elemento em seus detalhes, alcances e proporções. E isso nos ajudaria muito.

Mas na geografia da sala de aula não há uma cartografia permanente, marcada a tinta. No mundo da sala de aula acontece a ciência humana – tão sem ordem,  sem proporção e sem alcance definido que deixaria enlouquecido qualquer navegante. Ali não vale a cartografia, ou seja, não há lugar nem para os novos nem para os velhos mapas. O que valem ali, naquele mundo, são os olhos. Como luzes jogadas ao mar, que buscam e buscam.


E foi num desses dias – sem mapas – que encontrei um olhar… Depois outro. E mais outro… E outro também. Eram tantos, mas, asseguro, não eram muitos, nem todos. E pasmem, sem querer dar exclusividade à minha condição de mulher e confortar-me (ou gabar-me), eram somente olhos femininos! Dei-me ao luxo de achar aquilo um privilégio, uma coincidência marota, e pensei, parodiando Vinícius: “Me desculpem, mas ter seus olhos é fundamental1”.

A sala de aula é um mundo: quase vinte eram os meninos na sala, mas nenhum deles me olhava. Elas, ao contrário, eram em menor número e certamente não chegavam nem a doze,  naquele mundo da sala de aula… Mas todas estavam a me ouvir com os olhos… Para ser mais precisa, vinte e dois eram os olhos que jogavam luzes nos meus.

Deixei a aula fluir assim, no meio daqueles olhos de meninas, que sorriam e brilhavam, refletiam nos meus uma alegria, um entusiasmo, uma cumplicidade maravilhosa, serena e forte; “coisa de menina pra menina”. Mesmo que sem planejamento prévio, deixei que os olhos de meninos tivessem seu momento de olhar para o horizonte, para um nada igualmente importante e suficiente, e ali mesmo se espremessem em risos e conversinhas miúdas: “não vão faltar oportunidades para que nossos olhos também se encontrem”, pensei.

O sinal bateu para o recreio e logo alguém abriu a porta. Em poucos minutos, o silêncio da sala levava para fora os alunos – uns mais encantados que outros. No final das contas, saímos todos. 

Eu poderia ao menos ter dito aos meninos: “a sala de aula é um mundo”. E completado, parodiando Vinícius de novo: “e é preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso1.”

(1) Receita de Mulher, Vinícius de Moraes. Disponível em https://www.vagalume.com.br/vinicius-de-moraes/receita-de-mulher.html Acesso em 8 de mar.2019.

Helenice Schiavon – Professora, graduada em letras e em pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

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