Janeiro 26, 2019 Core

Em que mundo você vive?

De que mundo falamos, no dia 27 de janeiro?

Um dos mais importantes geógrafos do Brasil, o intelectual Milton Santos, afirmava que vivemos “três mundos num só: o mundo tal qual nos fazem vê-lo, o mundo tal como ele é, e o mundo como ele pode ser”.

A maioria de nós, entretanto, parece não pactuar dessa lógica, e acredita que viver é escolher qual personagem incorporar e em qual fábula – mundo ou território – se inserir. Assim, segundo essa ideia, nós, seres deste planeta, escolhemos ser um personagem neste ou naquele mundo ou história; esta preferencialmente escrita em versos alexandrinos, muito embora sempre a vivamos duramente em prosa.

É assim que, invariavelmente, vamos todos vivendo nossa fábula individual, como que num consenso mudo, na ilusão de um mundo de dignidade, protegidos do mundo da perversidade que, por sorte, ainda não nos atingiu e na esperança de encontrar um mundo como ele pode ser. Não nos damos conta assim tão facilmente — talvez porque teimamos em viver em mundos e atuar como personagens independentes — de que a geografia do nosso mundo é paradoxalmente maior e mais complexa do que imaginamos: se ousássemos viver “os três mundos  num só”, de longe perceberíamos que a doença que hoje nos invade o corpo é resultado daquilo que comemos (ou não), das escolhas globalizadas que fazemos nos supermercados, das marcas que optamos por consumir em nome da modernidade, dos canais de televisão que assistimos, das etiquetas que colamos no nosso corpo, dos produtos que compramos por compulsão, dos livros que deixamos de ler…

Se admitíssemos viver “os três mundos  num só” entenderíamos com clareza que o mosquito que voa para bem longe, afugentado pelo inseticida eficaz, pela eficiência dos médicos e dos planos de saúde que apenas assistem a alguns e pelo repelente a que, afortunadamente, podemos ainda pagar, é o mesmo que perfura o ventre das severinas vidas ao norte do país, a alguns passos de nossas casas ou a milhas e milhas daqui.

Se tivéssemos a humildade de reconhecer que não somos tão protagonistas assim nessa história, e que não há como viver apenas uma fábula – mas todas, então estremeceríamos ao ler que o mar de lama que se formou em Mariana afetou 663 quilômetros de rio e que sua gigantesca doçura não impediu que maculasse o Oceano; o nosso oceano. Entenderíamos também que, a despeito de todos os nossos esforços, para cada criança poupada dos horrores da guerra, da perversidade das tão adultas fronteiras que estabelecemos ao redor do mundo e para cada criança que saiu ilesa na luta contra um mosquito; para cada uma delas, há outra, esfomeada, afogada, mutilada, órfã ou doente; que em breve se tornará invisível.

Josué de Castro, presidente da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) entre 1952 e 1956, bem analisou a geografia da humanidade: (ela) “se divide em dois grupos – o grupo dos que não comem e o grupo dos que não dormem com receio da revolta dos que não comem.” Aqui, neste e em outros pontos, parece-nos que os enredos de tão diferentes fábulas se cruzam à revelia. Sírios, afegãos, subsarianos, eritreus e nigerianos fogem da morte e cruzam os mares – apenas para morrer em solos (ou águas) que, de novo, teimarão em lhes virar a face, pois que duvidam do sangue que lhes corre nas veias, da assustadora humanidade que exala nos corpos curtidos, das histórias que se cruzam com as nossas. Suas vidas secas não são mera casualidade, por certo: lá, como aqui, a geopolítica da pátria não lhes foi generosa; ao contrário, empurrou-lhes como mendigos ou piratas à nova Babel,  onde devem tornar a  pedir, sempre nestas e em outras portas — embora nos seja conveniente que batam sempre às mesmas —que os irão igualmente espremê-los, porque nunca há de se ter lugar para elas em nossas cidades-estado. Histórias recentes, exemplo da vergonha alheia e paradoxalmente coletiva e consentida.

E é dessa forma que vamos vivendo nossa fábula individual, excluindo as outras – não sem antes temê-las, ignorá-las e até destruí-las. Vamos assim, seguindo orgulhosos e ignorantes, nesse acelerado processo de perda de humanidade, deixando para trás a vergonha e os abusos sem conta, as falácias e os perigos das histórias únicas, a cegueira e as obscenidades vis do passado neste e em todos os solos. Seguimos assim neste delírio que coloca a memória para debaixo do tapete, donde ela se perderá entre os silêncios imundos que ali estão. 

A memória é o que nos resta de humanos. Ela ressignifica as lembranças, coloca nossas dores em espaços e tempos suportáveis. O calendário está repleto destas memórias: aquelas das guerras incompreensíveis, outras que nos recordam de que é preciso ser grato, ser justo ou ser humano. Tantas outras que nos lembram de que o mundo é um território compartilhado, uma aldeia. Algumas datas que não nos deixam esquecer de que nós e o mundo podemos juntos adoecer da mesma moléstia. Outras, de uma teimosia inconveniente, fazem-nos lembrar de que somos seres finitos e ínfimos. 

Há tantas outras datas que nos regojizam a alma, lembrando-nosde nossa primeira viagem à Lua, por exemplo, ou de que temos uma Consciência ( e que ela pode ser negra, inclusiva, diversa)… Mas, certamente há algumas datas que nos ferem de morte, revelam nossa face frágil e injusta; relembram-nos fatos de que não nos orgulhamos. 

Vinte e sete de janeiro é uma dessas datas: o dia Internacional da Lembrança do Holocausto – o Shoah. Um dia para lembrar com humildade contida a libertação, em grande parte, dos prisioneiros hebreus do campo de concentração de Auschwitz, em 1945. É um dia para celebrar a memória destes personagens emudecidos pela prepotência, pela morte e também pela graça de permanecerem vivos. Quantos dias assim ainda haveremos de lembrar em nossas vidas? Marcados para serem impiedosamente recordados e impreterivelmente esquecidos? O que fazemos deles em nossas memórias? Colocamo-los para debaixo dos tapetes? Ressignificamo-los ao ponto certo parapodemos suportá-los? Conferimos a eles uma poesia descabida, para que se ajustem em nossos corações e não nos apodreçam as almas? 

Muito recentemente tive a oportunidade de ler trechos de um livro em italiano do qual não me lembro o nome. Na verdade, o título do livro se confunde em minha memória, brota da semelhança de personagens de outros filmes, textos e até de encontros breves, reais e marcantes que pude ter ao longo da vida. Entretanto, sou segura em dizer que esta narrativa contava em detalhes os dias passados por um homem – ou quase homem – num campo de concentração e, antes disto, num trem que o levava à morte. A história eu não me lembro em detalhes, mas não teria sido necessário nem ao menos ler o livro até o final para saber o que aconteceria ao protagonista: uma fábula universal e previsível essa a do extermínio de almas! Por isso, ocupo-me, aqui, apenas de recontar uma das cenas do livro; aquela que me fez sentir absurdamente humana e pequena. E como o “narrador está em quem ouve”, narro aqui a cena como ela ficou em mim: um homem vendo o amanhecer da janela suja do trem, num calor insuportável de suores humanos, sedento e faminto. Do lado de fora da janela, a neve derretia e gotas se formavam em fila, insistentes, infames, indecentes e imaculadas, uma após a outra, provocando o corpo frágil do homem dentro do trem – cuja sede era maior do que o mundo.

Uma sede que persiste nas vidas feitas metades nestes nossos territórios.

Ao que parece, viver neste mundo nunca foi e nunca haverá de ser fácil. Talvez os calendários e suas datas insistentes sejam úteis. Eles não nos deixam esquecer da geografia de uma humanidade que não dorme, certamente porque teme aqueles que não comem. Talvez os calendários e suas datas persistentes despertem em nós o melhor dos mundos; aquele como ele deveria ser…

Talvez os “vinte e sete de janeiro”, passados e futuros,  permitam-nos suspender a história enquanto é clímax, concedam-nos a possibilidade de mudar o foco da narrativa enquanto é tempo, de reavaliar o herói e a vítima, de escutar as vozes, os silêncios e as consciências dos personagens em suas esferas e, quem sabe, assim, conferir novos e mais consensuais desfechos para cada um de nós.

Helenice Schiavon – Professora, graduada em letras e em pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

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