A inteligência e as emoções

Dezembro 18, 2018
Dezembro 18, 2018 Core

Afinal, o que é ser inteligente?

Primeiro pedir licença pra ocupar o tempo que você vai dispor para a leitura e agradecê-lo. Não se trata de manual de instruções, mas de encontrar palavras que, minimamente, expressem minhas vivências para abrir o diálogo e receber as críticas e comentários. Também preciso esclarecer que, ao citar os teóricos, não o faço literalmente e estou me referindo ao que entendi de cada teoria e acabei constatando nas minhas práxis (utilização de uma teoria ou conhecimento de maneira prática). E entendo a práxis educativa como “autoria” da pedagogia pessoal de cada educador e nunca o contrário. Penso que de nada adianta saber muita teoria se não a praticamos.

Então, vamos lá.

Há algumas semanas, lendo o artigo que a CORE compartilhou, traduzido na CONTI outra do original Rincon Psicologia: A negligência emocional sofrida na infância cria adultos pouco assertivos”, percebi a urgência atual de aprofundar esse tema da relação entre emoções e inteligência sobre o qual tenho me debruçado com paixão desde que me tornei mãe, com maior responsabilidade no meu papel de educadora. Penso que nem a escola nem a família estiveram preocupados com isso até hoje. O resultado está aí em nós, adultos que hoje formamos a humanidade planetária.

Fiz parte do grupo de adultos, citados no artigo, que foram negligenciados emocionalmente na infância. Aliás, não só minhas emoções foram negligenciadas no sentido de não serem olhadasmas pior que isso, geraram um verdadeiro conflito entre as emoções reais vividas e as expectativas do meu comportamento social. Aquele “engole o choro”, a sensação de “ovelha negra da família”, além do permanente “cala a boca” e “criança não tem que se meter na conversa” entre outras, ajudaram bastante na percepção pessoal da minha inadequação. Autoestima abaixo de qualquer sola de sapato. Muito abaixo.

Cresci nessa fictícia indiferença. Mas as emoções não paravam. Elas interferiam nas minhas decisões e nas minhas ações. No íntimo me achava inteligente. Mas não conseguia ser assertiva na maioria do tempo. E era muito infeliz nesse conflito interno, comparável a um vulcão inativo prestes a soltar sua lava contida a qualquer momento. Repetição e repetição daquela sensação de estar mais perdida que o cachorro que cai do caminhão de mudança. Nessa época já era professora e queria exercer essa função com dignidade. Busquei ajuda na terapia e fui parcialmente atendida na minha necessidade.

Por isso, no auge desse conflito não conseguia mais conter minha sensibilidade aos vários tipos de agressão que sofria diariamente na cidade grande. Veio a maternidade e foi o maior estímulo para minha decisão de mudar-me para Boiçucanga e viver a simplicidade, permitindo-me voltar a ser sensível e encarar de frente o conflito. Meus filhos também mereciam essa honra de poderem ser sensíveis e aprender a lidar com nossas emoções não foi tarefa fácil. O que desejo ao escrever sobre isso, não é dar receita do “modo de fazer”. Mas dar foco a este importante elo entre a inteligência e as emoções na formação da nossa personalidade e do nosso viver adulto.

Quero contar como evoluiu o convívio com meus filhos e posteriormente com os estudantes com quem convivi na escola pública local. Não se engane achando que foi tudo acerto. Mas que houve muito acerto e muita diferença entre a educação que recebi e a que oportunizei… Isso teve.

A maior diferença que quero citar foi a qualidade da nossa convivência que passou a ser ampliada em vários aspectos. Trabalhando em São Paulo, só convivia com meus 2 filhos (minha terceira filha nasceu quando já morava aqui) no final da tarde, até eles dormirem e nos finas de semana. Aqui, convivemos quase o dia todo, pois meu trabalho se realizava na parede ao lado da casa. Sei que nem toda mãe tem essa oportunidade. Mas o que valeu pra mim, nem foi só o tempo disponível, senão a diferença no “olhar”, que vinha modificado desde a decisão da mudança. Ampliaram-se os momentos de nos emocionar e a qualidade do tempo para “olhar” e “nos olharmos”. Ao mesmo tempo, eu tinha encontrado A terapeuta que me confirmou emocionalmente”, me ajudou muito durante esse processo e preciso honrá-la com gratidão citando seu nome: Leda La Laina que, eu acredito, virou uma estrela no céu há alguns anos, mas tem sua continuidade em mim.

Veja bem, estou falando de qualidade na convivência, no “olhar” e no compartilhar emoções. E não estou defendendo que a mãe não trabalhe. Mas que consiga voltar do seu trabalho com disponibilidade quando estiverem juntos. Nem que seja, como eu fiz, para comunicar-lhes que estava cansada, triste porque meu dia não foi produtivo no trabalho, com raiva por não ter sido valorizada no meu esforço, enfim, só o fato de me expressar humanamente emocionada, já foi um passo importantíssimo. Inclusive falando e expressando minhas emoções em relação aos seus atos e nunca ao seu ser. Entender essa diferença é crucial. Destilar minha raiva, por exemplo, dizendo: “você é um idiota” em vez de: “o que você fez me deixou com raiva ou magoada” é muito diferente.

E outra consequência é que as relações não ficam “pasteurizadas” em aparente indiferença como eu tinha vivido na infância. Ao demonstrar que reconheço minhas emoções e não tenho receio de senti-las nem de me responsabilizar por elas, dei permissão para que eles fizessem o mesmo, inclusive a respeito dos meus próprios atos. Com isso não me apequenei, muito pelo contrário, tornei-me respeitável e respeitadora da nossa humanidade. Isso não é insignificante especialmente no primeiro setênio (dos 0 aos 7 anos), coisa que aprendi da proposta de educação Waldorf e outros. Senti na pele as consequências dessa fase crucial no desenvolvimento das percepções de mundo que carrego pela vida. E eu não seria descuidada com meus filhos, especialmente nesta fase de enorme dependência até conseguirem autonomia para andar sozinhos, falar, alimentar-se sozinhos, praticar hábitos de higiene sozinhos, e, o principal: a conviver socialmente com independência, amorosidade e responsabilidade.

Assim, naquela época cada vez mais intuitivamente, aceitando o papel de adulto responsável no respeito à aprendizagem extrema e visceral na infância e, aos poucos e ao mesmo tempo, incentivando a autonomia possível em cada idade – como generalidade e respeitando suas características individuais – singularidades. Passei a ver o erro como oportunidade de aprender a fazer agora aquilo que antes não sabia, que pra mim é a própria definição de aprender e de ser inteligente. Errar na infância nunca deveria ser merecedor de punição. Principalmente no aspecto emocional.

E aqui quero me deter um pouco e falar sobre as emoções primárias que Paul Ekman sintetizou: alegria, tristeza, raiva, medo, nojo e espanto, que foram tão bem caracterizadas no filme Divertida-mente indicando que as emoções fazem parte do nosso ser humano e comandam nossas ações. Considero essa síntese de extrema importância porque seus derivados, também explicados pelo autor, podem nos desviar a atenção, levando-nos a conclusões nem sempre adequadas.

É claro que a alegria é uma das emoções mais bem-vindas e é um privilégio conviver com a alegria das crianças que é tão natural e despreocupada, tão espontânea e tão presente a maioria do tempo. A risada das crianças é contagiante! Como gostaria que o prazer desses momentos permanecessem o tempo todo e pra sempre! Só que não. As outras fazem parte.

Também não é muito difícil conviver com as crianças quando estão tristes, principalmente quando reconhecemos em nós mesmos motivos sinceros para o choro: o nosso que é compassivo e o delas que é espontâneo. Só será deturpado se precisamoscriar camadas cada vez mais espessas de armaduras em prol da nossa sobrevivência emocional. Talvez por isso nem todo adulto consegue conviver com o choro e a tristeza expressas no rosto e nos gestos das crianças. Não aprendemos que o mais apropriado a fazer é “ser continente”, “dar colo” e “um certo silêncio respeitoso”. Ao fazer isso, primeiro possibilito a confirmação da existência dessa emoção humana na vida da criança. Depois, e justamente porque a respeito, consigo me colocar como um porto seguro, um continente que a suporta. Não é à toa que quando ficamos tristes, temos vontade de chorar e, mesmo que não haja choro, a gente tende a ficar com a visão turva, os cantos da boca caem e isso nos deixa sem palavras, a temperatura e a pressão do corpo varia sensivelmente do habitual…para alguns aumenta até a febre e para outros cai até o desmaio e nossa postura corporal lembra a do feto dentro do útero. Muitos levam as mãos ao rosto na tentativa de esconder a dor e acaba percebendo que ela vem de dentro pra fora. Nesses momentos, o maior desejo é ter um colo que nos abrace, um ombro pra apoiar nossa cabeça dolorida. Nem sempre queremos ouvir o que os outros tem a nos dizer. Talvez o silêncio seja exatamente o que nos fará entrar em contato com a emoção até que passe… dizem os psicólogos que a emoção dura apenas alguns minutos variando de pessoa para pessoa. Se passar disso, pode tornar-se um sentimento que nos acompanha por um dia inteiro, podendo chegar a um estado de espírito que pode ser permanente em nossas vidas. Toda vez que convivi com uma criança que estava triste procurei dar colo, algum silêncio ou poucas palavras: “Você está muito triste, não é?” ou ainda “Vem aqui no meu colo ou no meu abraço até a tristeza ficar menor. Depois a gente descobre de onde ela veio”. Quantas vezes curei feridas com meus beijos e depois fiz o curativo. Beijo de mãe cura, sabia? O que mais me preocupa e já presenciei com frequência é a inabilidade dos adultos pra lidar com o choro, o lamento e outras expressões de tristeza das crianças. Não aceitam como natural e tentam distraí-las com espantos, mandam calar a boca, parar de chorar e, no limite, assumindo postura agressiva de agarrar a criança pelo braço pra ter “aquela conversinha particular”. O pior mesmo é quando a criança já desenvolveu camadas de couraças de sobrevivência. Convivi com muitas. Aparentam indiferença à própria dor e a dos outros. Alguns riem aquele riso nervoso de quem não consegue lidar com a tristeza. É essa incapacidade que me preocupa nos adultos de hoje. Fico me perguntando: como foram tratados quando choravam ou se lamentavam? Será que aceitam a tristeza como emoção integrante do ser humano e em si mesmos? Como convivem com suas tristezas atuais? De que forma a tristeza da criança atinge suas próprias emoções? Será que consegue ser continente?

Agora, as emoções com as quais tive mais dificuldade foram: a raiva, o medo e o nojo. Geralmente consideradas emoções destrutivas ou negativas. Só que foram essas emoções que permitiram aos nossos ancestrais sobreviver. A raiva e o medo porque fazem com que lutemos e nos defendamos de um perigo iminente. A raiva desencadeia no corpo as químicas que nos dão força aos membros. Como aquela mãe na Disney que abriu a boca de um crocodilo pra tirar seu filho de lá.  Nossa boca enrijece e abre nossa garganta ao grito, os olhos se espremem para focar melhor o que nos ataca. O que chamamos de agressividade espontânea nas crianças pode ser tão produtivo quanto destrutivo. Cabe a nós adultos, ter essa compreensão dos motivos porque essa criança está atacando ou se defendendo em gestos extremos como só elas têm permissão pra fazer. E, compreendendo suas motivações e aguardando o tempo para acalmá-la, conversar sobre a raiva, sobre a reatividade irresponsável e depois sobre a ação pensada. Nesses momentos, por exemplo, briga física entre irmãos ou entre colegas, minha primeira intervenção foi: “Primeiro vamos nos acalmar”. Apartar os corpos com delicadeza, mas com firmeza. Se alguém “escapar e fugir” não há problema algum. É até bom que saia da situação apaixonada para tomar distância suficiente e poder raciocinar sobre o ocorrido. Depois a gente conversa. Só não esqueça da conversa posterior. Ela é extremamente necessária pra identificar onde a raiva disparou e, justamente ao relatar, cada um dos envolvidos perceba sua reatividade e as consequências dela. Não aceito: “foi ele que começou”, para decretar o culpado e definir a punição. Não é disso que se trata a expressão da raiva e da agressividade. É uma questão de aceitar a raiva como natural do humano e conseguir aprender o modo civilizado de conviver com ela e com a dos outros. Não vamos dar corda pra guerra. Vamos repensar as brincadeiras com armas e os games e filmes de ficção que exaltam as guerras com todo tipo de armas poderosas. Vamos praticar a paz todo dia intervindo nesses atos corriqueiros, mas muito significativos.

Muito similar é com o medo e o nojo. Não há como negar que estas emoções estejam presentes na nossa ação cotidiana, nas nossas decisões. E assim como a raiva, também nos serviram pra sobrevivência. Imagine se, ao deparar-se com um leão faminto, nossos ancestrais não tivessem medo? E se não tivessem nojo de alimento estragado através do olfato e da gustação, cuspindo pela sobrevivência? Então. O mesmo tratamento dado à raiva, dei ao medo e ao nojo. Não é fácil aceitá-los como parte humana na minha vida. Sempre tive uma sensação desagradável ao senti-los. Muito mais desagradável que a raiva. Precisei de um tanto de terapia pra me convencer a incluir o medo e o nojo nas minhas ações e, geralmente vieram sob o formato de doenças físicas. Não há como não fugir ou ficar paralisada frente a uma ameaça real ou imaginada. Não há como não cuspir ou vomitar ao reconhecer situações nojentas. Sou sincera, estou lidando com elas ainda hoje. E receio que muitos humanos pelo mundo estejam também.

Por fim o espanto. Ah! O espanto! É quando a gente é pego de surpresa e faz aquele OHHH!!!! Pode se referir ao êxtase ao ver uma obra de arte, ao ouvir uma música, uma declaração de amor imprevista, ao ver um por de sol espetacular. Arrepia! Mas, pode ser também um OHHH! de horror, ao sentir um fedor extremamente desagradável, ao ver uma cena que cause indignação, ao presenciar uma catástrofe horripilante. Para o espanto, não há o que prevenir ou educar. Nossa vida está lotada de espantos que geralmente nos remetem às emoções primárias. Por isso será muito importante conseguir “civilizar as emoções”. Os espantos são muito mais causa que consequência por isso é tão difícil ser civilizado no instante do espanto. Não há como deixar de ser reativo. Não há como pensar sobre, antes de agir. Mas, nesse caso, é possível pensar depois de agir e, quem sabe, voltar atrás, se desculpar, exercitando a sinceridade e a humildade. Perdi a conta das vezes que tive que interferir pra que o pedido de desculpas fosse sincero e anulasse profundamente as consequências do espanto. É muito similar à reatividade frente às emoções que ainda são tão espontâneas nas crianças. O que me preocupa é como nós adultos temos lidado com a aceitação de desculpas. Será que percebemos a diferença entre a reatividade infantil, o espanto e, por exemplo, uma vingança deflagrada pela raiva e outros atos premeditados? Será essa a crucial diferença entre civilidade e barbárie?

Como já disse, enquanto ia participando intuitivamente no processo de aprendizagem com meus filhos, além de auxiliada por minha terapeuta, passei a estudar psicologia de forma autodidata e encontrei autores que também me confirmaram e que usei na práxis educativa no Ensino Fundamental, vários anos após meus filhos se tornarem adultos.

Hoje, entendo que nós, seres humanos (não sei sobre outros seres), somos movidos por nossas emoções. Isso é bem claro pra mim. A palavra emoção vem do latim “emovere” de movimentar, de mudar de lugar, de agitar, no sentido de impulsionar para a ação. Por isso o mais importante é reconhecer nossas próprias emoções primárias e estudar Paul Ekman citado acima. Se eu tivesse aprendido isso na infância, não precisaria me debater tanto com minhas decisões atabalhoadas. Talvez não tivesse ficado tão doente durante toda minha vida conflitada entre meu ser e o meu fazer. Hoje me considero uma humana adulta inteligente. Se meus filhos também são? Pergunte a quem os conhece. Seria demais “coruja” pra expor aqui.

Entendo que durante o amadurecimento, da infância à velhice, vamos aprendendo duas formas (simplificando pra ficar fácil) de apresentar/expressar nossas emoções ao mundo, que foi o que entendi da leitura de Daniel Goleman em “Inteligência emocional” e em “Como lidar com emoções destrutivas”.

1. a forma reativa, é o “agir sem pensar” quer dizer, a emoção é expressa imediatamente após ser sentida e nem sempre tenho consciência de qual me moveu, nem das químicas que se espalharam por meu corpo auxiliando a reação.
2. a forma pensada, quer dizer que, antes de agir, a emoção e as reações químicas consequentes tornam-se conscientes e posso refletir sobre elas antes de agir, pensando nas consequências e na responsabilidade por meus atos e palavras.

Amadurecer pode significar que o tempo vai diminuindo entre a emoção e a ação. É isso que pode nos tornar mais inteligentes ou assertivos. Aprender isso desde a infância é o que nos possibilita sermos humanos civilizados, cidadãos, moradores da Pólis: portanto seres políticos e seres sociais. Hoje em dia, até a alegria, por mais que incentivemos sua espontaneidade sendo considerada emoção positiva, merece um olhar cuidadoso em relação a situação que a provocou. Rir, aplaudir e celebrar chutando cachorro é triste. Muito triste. Rir, aplaudir e celebrar porque passou uma rasteira no colega e o fez cair é triste, muito triste. Rir e se divertir na cara do torcedor do time que perdeu o campeonato humilhando-o é triste. Recentemente veio à tona essa palavra “bullying” pra uma ação humana tão antiga. Que é sentir prazer ou “se alegrar” na dor dos outros. Isso não é saudável emocionalmente. Está na moda também falar em empatia que definem genericamente como colocar-se no lugar do outro. Não é só isso. É além disso, sentir as emoções do outro por reconhece-las em si mesmo.

Então, quanto mais amadurecemos responsáveis pelas consequências dos nossos atos, mais evoluímos na vida social que criamos, mais civilizados seremos na nossa convivência. A infância é o momento certo de agir com espontaneidade ou “sem pensar” e errar. Cabe a nós, adultos – desde que saibamos ou nos dediquemos a aprender permanentemente – auxiliar as crianças e jovens a refletir sobre as ações subordinadas às emoções e suas químicas, percebendo a diferença entre as que passam pelo córtex frontal, ou não. Consequentemente, ir assumindo responsabilidade pelos próprios atos que eu chamo de autonomia responsável. E o exemplo dos adultos é a melhor fonte de aprendizagem para as crianças. Para o saudável ou não. O exemplo de vida digna e humana da mãe, da professora, enfim, dos adultos que cuidam das crianças é, sem dúvida o maior ensinamento pra vida. Não é a leitura, a escrita, o cálculo, o diploma. Não é. Se dependesse disso pra se ter uma vida digna e humana, não haveriam tantos diplomados mau caráter. Nem tantos gestores cultos indiferentes e egoístas.

Penso que cabe a nós educadores/as invertermos as prioridades na escola e na família, valorizando a formação humana e colocando a capacitação sob sua subordinação. Assim contribuiremos para que cada criança e jovem, conscientes de sua responsabilidade social exerçam qualquer atividade, inclusive a profissional, construindo seu futuro com autonomia emocional humana. Porque sua autoestima não estará fora dele, na classificação ou avaliação de outros, mas estará em si mesmo.

É assim que entendo este momento da humanidade mundial. É o nosso espelho: adultos infantilizados na nossa reatividade, inconsequência e irresponsabilidade social. Por isso vejo a urgência do foco neste aspecto humano que foi relevado por muitos e por tantos anos. Ainda tem quem acredite, como antigamente, que o erro infantil tem que ser tratado na base da punição e que é a melhor forma dos seres humanos “aprenderem a lição”. Só que não. Isso não é viver, muito menos evolução social e civilizatória. Isso é manter o “agir sem pensar”, a reação infantil irresponsável, o autoritarismo e a arrogância daqueles que acham que sabem o que é melhor para o futuro do mundo, para o futuro das criança e jovens sem sequer “olhar pra eles como humanos emotivos e autônomos. Querem adivinhar o futuro estabelecendo o que as crianças e jovens viverão, mas que nós adultos, talvez nem estejamos lá para ver. Muitos adultos ainda pensam a criança como um depósito de conteúdos conceituais pra “se dar bem na vida”. E o jovem apenas como trabalhador, “mão-de-obra” para o mercado de trabalho. Foi isso que fizeram conosco e eu não me sinto satisfeita com o resultado.

Hoje em dia tenho visto com muita frequência adultos agirem como crianças e me lembram do meu tempo de professora:crianças de 6/8 anos de idade aglomerando-se aos berros, palmas e gestos de murro para o ar, em volta da briga: “Briga! Briga! Briga!” Isso só é aceitável na infância pela inocência e o erro do ato. Não deveria ser aceitável no comportamento de adultos. Não mesmo.

Fico por aqui. Foi este o foco que escolhi neste momento. Sei que não consegui sintetizar e, mesmo assim, ainda vejo o texto incompleto. Posso contar sobre outros aspectos importantes que vivenciei no convívio com meus filhos e alunos como, por exemplo: o uso da heteronomia para alcançar autonomia (Lauro de Oliveira Lima); a autopoiese, a definição do verbo amar e a fundação do social (Humberto Maturana). Quem sabe numa outra ocasião se vocês assim o desejarem.

Despeço-me na esperança de ter provocado. Grata por você ter lido até aqui. Aguardo suas ideias nos comentários. Abraço carinhoso.

Regina Potenza é Professora especializada em Educação Infantil; Pedagoga pela FMU. Autora de “Cala boca…já morreu!” Aposentada na Rede Municipal de São Sebastião – SP,  já exerceu as funções de Direção e Coordenação Pedagógica. Integra também a Rede “Românticos Conspiradores”.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *