O pai cego e o micro-ondas

O pai cego e o micro-ondas

Entre as tantas parafernálias eletrônicas da cozinha, a maioria delas inventada ainda nos anos 80, o micro-ondas, certamente, é uma das mais utilizadas – talvez empate com o liquidificador (bem mais antigo). Muita lenda urbana em torno do micro-ondas fez dele algo entre o amor e a desconfiança.

Desde que meu filho nasceu – em 2006 – sempre aqueci o leite dele no micro. Mesmo depois que perdi a visão, em 2007, aprendi a tatear pelas teclinhas em alto relevo no painel de comando, “PI-pi-pi” e estava tudo resolvido. Passados alguns anos, o velho e bom equipamento estragou. Foi a vez de comprar um desses super modernos, digital, sem botões.

Pronto, sem adaptação para deficiente visual, se foi a autonomia para utilizar o tal forno. Pela manhã, quando estou em casa, priorizo o momento de acompanhar o filhote na organização para escola: acordá-lo, perguntar sobre a organização da mochila, o banho, a escovação... Também preparo o café e organizo o lanche na mochila. A prosa matinal é sempre muito edificante e não abro mão desse momento. No entanto, toda vez precisava esperar o Dudu chegar na cozinha para que ele digitasse os segundos de aquecimento do leite.

Certo dia, por uma intuição dessas que misturam nostalgia e esperança, peguei uma caneca, daquelas de louça agda – esmaltadas – igual a uma que minha avó utilizava (só que a dela era verde, a minha preta) e aqueci o leite ali. Deu certo e, a partir de então, deixei de utilizar o micro-ondas.

Ontem a tarde o Dudu pediu uma caneca de leite. Como ele estava por ali, pus a caneca de leite no micro e pedi que ele digitasse “1 minuto”. Tudo preparado e o guri feliz com seu lanche da tarde. Hoje de manhã, como sempre faço, preparei o leite no velho e tradicional modo – mesmo com o risco daquela fervura sempre indesejada e a bagunça no fogão.

Já descendo a escada para a cozinha, Dudu foi logo dizendo:

“Papai, prepara o leite daquele jeito que você sempre faz. Fica mais gostoso do que no micro-ondas!”

Menino crescido no mar tecnológico, reconhece a diferença entre o alimento preparado no milenar fogo controlado e aquele resultado do aquecimento das moléculas de água provocado pelo reverberar de ondas eletromagnéticas nas paredes metálicas de um cubo sem graça.

Mais uma descoberta embutida nas vivências de minha cegueira. Tchau micro-ondas!

Adriano José Hertzog Vieira é Doutor em Educação, Filósofo, Pai e Conselheiro de Honra da CORE. Escreve às quartas e sextas. 

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