Malala, a jovem idealista que não aceitou parar

Malala, a jovem idealista que não aceitou parar

por Claudia Siqueira*

Malala em São Paulo? Lógico que estaríamos lá! Afinal, o Instituto Sidarta comunga da sua causa, de seu propósito e de sua missão. Gratidão ao nosso parceiro, Itaú Social, pelo convite, mas muito mais pela iniciativa em trazer esta jovem inspiradora para conversar sobre seus projetos e iniciativas com outros jovens brasileiros.

Em pleno feriado de 09 de julho, data que marca a Revolução de 1932, Malala fez também uma revolução: o dia em que anunciou, com sua voz suave, porém firme, que seu instituto, Malala Fund, apoiaria iniciativas no Brasil!

E o local escolhido, o Auditório do Ibirapuera – Oscar Niemeyer, era onde Malala merecia ser recebida aqui no Brasil. Quer algo mais democrático que espaços públicos ocupados? Mesmo que ainda alguns não entendam assim, simplesmente é assim... um exercício de equidade!

Na entrada um belo cartaz com uma foto enorme da Malala e uma frase sua: “Quando alguém lhe tira as canetas, você se dá conta como educação é importante”. Lemos várias vezes essa frase. A cada repetição, percebíamos como a reflexão nos tocava. Lembramos da greve dos alunos do Ensino Médio, de quantos meninos e meninas, jovens e adultos ainda não têm direito à educação em nosso País.

Às 16h, todos se dirigiam para o encontro com a paquistanesa. Talvez ainda sem noção total de como sairiam daquele encontro mágico. Ainda não dava para imaginar que poderiam passar a noite toda ouvindo e agradecendo àquela jovem.

O evento foi iniciado por um grupo de mulheres cantando lindamente, com uma performance que garantiu todos os olhares - e celulares, lógico! Ao final da música, um breve vídeo narrando a trajetória de Malala fez com que as lágrimas começassem a rolar (e os pedidos de lencinhos também). Sem muito alarde, entra uma jovem com um belo hijab azul. Ela olha de forma curiosa para tudo e para todos - Era Malala! O auditório veio abaixo, todos aplaudindo de pé. Com gestos muito suaves, ela agradece o afeto colocando a mão em seu peito e inclinando levemente sua cabeça para baixo, como se respondesse: “sou grata”.

Malala dividiu o palco com outras mulheres brasileiras, que tinham suas bandeiras, suas missões e inspirações, e confesso que esta escolha muito nos agradou. Ali no palco não era um oráculo, mas a menina que não aceitou um não, pagou por isso e não abandonou seu sonho! Assim como todas as mulheres que dividiam o espaço com ela.

Em certo momento, a jovem quis responder questionamentos do público, que assim como ela, não se conformaram, avançaram e estão ajudando a criar um novo contorno às muitas iniciativas - antes silenciosas - que existem nos vários cantos de nosso País.

A conversa foi bastante diversificada. Abordaram a importância da leitura e da escrita, o empoderamento feminino e o direito à educação. A cada abordagem, uma convidada narrava algo que trazia sentido à sua vida e falava de seus sonhos, e as muitas pedras que tirou do caminho. A mediadora também pedia a participação do público e as falas de todas, absolutamente todas, foram assertivas, inspiradoras e muito empolgantes. Isso porque eram jovens de diferentes lugares de nosso país, que resolveram fazer, e ponto. Falavam com entusiasmo e alegria de suas conquistas e como tinham conseguido alterar a realidade de seus territórios.

A cada narrativa, pensávamos nas muitas Malalas que estavam naquele encontro, e como era bom sentir orgulho em ouvir jovens mulheres reescrevendo suas histórias, assim como nossa querida convidada.

Todos os presentes viveram uma experiência única, porque puderam compartilhar diferentes experiências das muitas Malalas brasileiras. Única e de sorte, porque outras não sobreviveram aos tiros, às agressões, às emboscadas, foram silenciadas por uma sociedade que, assim como faz o Talibã, silenciam suas meninas e mulheres, não lhes dando direito à cidadania, porque sabem - e temem! - uma sociedade mais equitativa, inclusiva e plural.

Já Malala não nos inspirou por suas palavras, mas por sua atitude, por suas escolhas, por seus posicionamentos e acima de tudo por sua coragem! Talvez a escolha pelo não silenciar-se é o seu maior exemplo.

Criar um blog, se posicionar, levar um tiro, sobreviver, aceitar mudar de vida e sair pelo Mundo inspirando outras mulheres como ela a lutar pelo seu direito, é o gesto mais nobre e simples para defini-la.

Para nós do Instituto Sidarta, estar neste encontro histórico no ano que completamos 20 anos de existência foi mais um presente e reafirma um de nossos princípios:

Teorias não substituem experiências de vida

E Malala nos mostrou isso na prática. Nossa gratidão!

 

Malala falou sobre...

  • As escolhas de seu pai em rever seus princípios para compreendê-la, como ele foi importante em sua jornada, o apoio de sua família ;
  • A luta pelos direitos à educação de mulheres em diferentes partes do Mundo e como esta causa lhe toca porque ela sabe o quanto educar as mulheres diz muito de um País;
  • Gênero e a luta das mulheres para terem um lugar na sociedade;
  • A discriminação e o racismo como elementos paralisantes para o exercício de uma sociedade mais equitativa;
  • A preocupação em ver tantas meninas fora da escola, sem direito e voz;
  • A importância de uma fala pacífica para ser ouvida e considerada;

* Claudia Siqueira atua há mais de 30 anos na área de Educação. Historiadora e pedagoga fez magistério com especialização em Educação Infantil. É pós-graduada em "Aperfeiçoamento de docentes de Educação Infantil e Ensino Fundamental" pela PUC e em "Pedagogia de Projetos e Tecnologias Educacionais" pela USP. Tem como foco de pesquisa e estudo a Primeira Infância. Cursou especialização no tema em Harvard em 2015 e Metodologias Educacionais na Universidade de Stanford. Professora de pós-graduação na área de Educação. Apresentou projetos de educação em várias regiões do Brasil, no Japão, EUA, América Latina e Europa, atua como consultora educacional em escolas do país e ministra palestras em congressos nacionais e internacionais. Autora de livros na área de Educação e 1ª Infância, também escreve para revistas na área de educação. Foi palestrante do TEDX Educação 2017. É diretora do Instituto Sidarta, responsável pela gestão de projetos socioeducativos, publicações científicas, formação de educadores e articulações entre políticas públicas e iniciativas privadas.

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