Educar é libertar

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Educar é libertar

Sempre ouvimos dizer que são as ideias que transformam o mundo, mas é preciso valentia para colocá-las em prática. Não é suficiente que nós, educadores, saibamos o que fazer, temos que comprometer-nos com nossos educandos.

Todo mundo parece mais ou menos entender o que significa educar, mas, na verdade, poucas atividades humanas têm acumulado tantas contradições ao longo dos séculos, desde Aristóteles até nossos dias.  Domar os instintos naturais pela razão ou dar rédea solta ao brutamontes que cada um de nós carrega? Ser espontâneos ou “educados”? Afinal o que é nosso e o que é aprendido? Durma-se com um barulho filosófico desses…

Para Friedrich Fröbel, pedagogo alemão e fundador do primeiro jardim da infância da história, por exemplo, “a educação não é senão a vida ou o meio que conduz o homem, ser inteligente, racional e consciente, a exercitar, desenvolver e manifestar os elementos da vida que possui em si mesmo. ”

Entretanto, existem autores que pretendem explicar a conduta do homem pelas mesmas pautas de conduta do animal irracional. Uma das características centrais do Manifesto Behaviorista foi sua ênfase no ambiente. Embora Watson tenha se referido em muitas ocasiões a fatores biológicos, e especialmente neurofisiológicos, em seus trabalhos com animais, crianças e adultos, a ênfase se centrou no papel do ambiente. Ele nunca descartou o papel da biologia na conduta. No que tange ao ambiente, deu-lhe uma importância primordial.

Sua conhecida frase sobre esse assunto diz o seguinte: “Deem-me uma dúzia de crianças saudáveis e bem formadas e meu mundo específico para criá-las, e eu me comprometo a escolher uma delas ao acaso e treiná-la para que chegue a ser qualquer tipo de especialista que escolher: médico, advogado, artista, comerciante, e inclusive mendigo ou ladrão, sem levar nem um pouco em conta seus talentos, capacidades, tendências, habilidades, vocação ou a raça de seus antepassados. ”

Sem dúvida que poderia alcançar seu propósito; mas um homem assim fabricado, seria um homem ou um animal treinado? Chegaria a ser o que seu treinador determinara, mas não o seria por si mesmo…

E não é uma tentação permanente para os educadores pretender que os alunos ou educandos sejam imagem e semelhança sua? Muitos pais também projetam seus próprios desejos na educação dos filhos com a desculpa de que “não falte a ele o que eu não tive” ou “que estudem o que eu não pude estudar, que sejam o que eu não pude ser.” E assim vamos tendo uma legião de médicos, administradores e advogados frustrados.

Esquecemo-nos, educadores e pais, de uma verdade fundamental na educação: que educar não é impor nada a ninguém, mas ajudar a ser; que o principal agente na educação é o próprio sujeito, autônomo, livre; que o educador ou o pai não é mais que um meio para que o outro se eduque.

A educação é um processo interno (intrínseco, dirão os filósofos, que gostam das palavras mais bonitas) que ninguém pode assumir pelo outro. O objetivo da educação é que o indivíduo alcance sua felicidade na realização plena de sua “vocação”, anuncia Bernabé Tierno, pedagogo espanhol. E, continua citando a Gabriel Marcel, como “minha vocação sou eu mesmo”, a educação é a realização de minha “vocação” de homem, de pessoa humana e essa não consiste tanto em fazer coisas, mas em “fazer-se” a si mesmo. É a própria pessoa, o próprio educando que se faz, aperfeiçoa-se. …

Educar-se é, definitivamente, aprender a insubstituível tarefa de ser homem.

O educador não pode suplantar a responsabilidade do aluno, a escola e a família não devem, portanto, tornar-se locais de treinamento, onde a criança é forçada a aprender, mas em lugares nos quais livre e autonomamente ele opta por aprender e respondendo às necessidades atuais da criança, não àquelas que ainda terá ao longo dos anos. A criança tem o direito de viver a sua infância, sem que ninguém (nem os educadores) a impeçam.

O ambiente educativo deve despertar os alunos e não os modelar como se fossem argila sem forma. Não são animais que estão ali para serem domesticados: eles possuem vontade, desejo, liberdade que precisam ser respeitados e tomados em conta. Desde a educação infantil defendo um tipo de educação que faz do aluno o protagonista de sua educação. Como sonhava Emmanuel Mounier: a educação faz parte da formação integral do ser humano e a escola, “desde o primário, tem a função de ensinar a viver, e não de acumular conhecimentos exatos ou destrezas” por isso, “a educação não pode ter como fim moldar a criança ao conformismo de um meio familiar, social ou estadual, nem se restringirá a adaptá-la à função ou papel que lhe caberá desempenhar quando adulto. ”

E termino, citando meu querido Mounier, novamente, porque não poderia deixar de lembrar uma frase que continua fazendo com que eu, todos os dias renove minha paixão pela Educação, com maiúscula: “Todo verdadeiro educador é ao mesmo tempo, embora em proporções variáveis, um profeta, um polemista, um psicólogo ou, se preferir, um professor. ”

Até a próxima!

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