Democracia e imaturidade

Democracia e imaturidade

Hoje fiz um exercício de revisitar a história do Brasil com um olhar para a experiência democrática vivida nos 518 anos deste paraíso tropical. Repassei a lista de presidentes do país, buscando compreender os contextos de suas eleições e mandatos.

Dei-me conta de que, na prática, com muito otimismo, podemos identificar uns 60 anos de experiência democrática, considerando as eleições diretas de voto popular. Se contarmos o voto de cabresto, o coronelismo, a manipulação da mídia, talvez cheguemos a uns 30 anos de exercício livre e democrático da consciência política e social.

Política é vivida na formação de um povo, no exercício de sua voz, de seus debates, de suas escolhas. Política não é o exercício de gestão de uma unidade da organização social – seja o município, a unidade da federação ou a união.

Política é o modo como você e eu vivemos no cotidiano, as opções que fazemos, as decisões que tomamos. E é nesse contexto que amadurecemos, que praticamos as relações sociais que promovem o bom convívio, em todos os sentidos. Não é a mão de ferro de um governante que nos dará qualidade de vida.

Ontem um vizinho contou que estava numa fila de carros, no centro da cidade, aguardando a vez de entrar no cruzamento. Um motorista que estava atrás dele ultrapassou pela direita e foi até a frente da fila forçando a entrada. Um adesivo no tal carro pedia a intervenção militar.

Meu vizinho concluiu, indignado:

“O que adianta o cara pedir intervenção militar para melhorar algo lá em Brasília se ele não muda seu jeito de ser aqui”.

A história do meu vizinho me fez refletir sobre a imaturidade democrática que viceja em nosso torrão continental. Idealizamos um poder fora de nós e queremos que aquele que manda diga como devemos agir. A imaturidade tem como característica a projeção no outro de nossas questões. Lembro do cineasta Woody Allen que, numa entrevista, reclamou da imaturidade de sua esposa: “Minha mulher é muito imatura: sempre que estou tomando banho na banheira ela afunda meus barquinhos”.

Não há imagem mais propícia às solicitações de intervenção militar: queremos que alguém resolva nossos conflitos para que sigamos imaturos. Queremos que parem de afundar nossos barquinhos. Se um regime diretivo resolvesse alguma coisa, os mais de 450 anos entre império, ditaduras e arbítrios teriam nos tornado o melhor país do mundo para se viver.

Até quando vamos nos iludir?

Adriano José Hertzog Vieira é Doutor em Educação, Filósofo, Pai e Conselheiro de Honra da CORE. Escreve às quartas e sextas.

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