Das dores e amores dos adolescentes

Das dores e amores dos adolescentes

Das dores e amores dos adolescentes

Como nós, professores e adultos que somos, vêmo-nos diante dos jovens, numa sala de aula, se não for dde um lugar de escuta ativa e atenta...

Adolescentes vivem no mundo de amores, medos e vigilâncias líquidas. Como, sendo professora, posso contribuir?

Considero-me uma pessoa bastante questionadora. Curiosa. Com muita frequência, desconfiada. Consequentemente, teimosa. É assim que, no dia a dia, assistindo ao notíciário ou a uma série na Tv, lendo um livro, interagindo com amigos ou com alunos na sala de aula, sigo questionando a força da palavra empregada no texto, surpreendo-me com as reticências nas falas daspessoas; sempre desconfiando (no melhor sentido) dos discursos, das motivações e das intenções a que todos nos destinamos,  indistintamente, toda vez que, por exemplo, elaboramos um pensamento.

A razão deste meu modo de ser – ao contrário do que possa parecer – não está centrada na prepotência ou no desejo ansioso de ser mais ou melhor, mas antes, nas crenças que tenho ou deixo de ter – frágeis ou não.  Sigo assim - questionadora, curiosa, desconfiada e por vezes tão teimosa – porque entendo que os raciocínios humanos são fruto de mecanismos que são dependentes, sobretudo, das experiências sobre os saberes que são (ou não) oportunizados pela vida. Eis a razão pela qual me autorizo a questionar, desconfiar e teimar sempre. Arrisco-me a dizer que sentir e agir assim é, para mim, uma forma de amar. 

O fato é que tais posturas, diante daquilo que há no mundo, têm me ajudado a entendê-lo e a agir mais assertivamente também com as pessoas. Assim, aquilo que para mim, até outro dia, poderia ser compreendido através do correto exercício da empatia, hoje é sustentado por uma resiliência que passa forte pela cognição. O que antes era um juizo de valor (in) contestável, nenhuma chance tem hoje de se tornar valoroso, caso não passe pelo crivo do raciocínio; submetido que deve estar aos meusmecanismos internos – da analogia à intuição. 

Essa leitura do mundo e das coisas que há nele me faz sentir mais potente e viva, sobretudo quando estou diante de adolescentes e jovens. E por quê? O motivo é um só: sobretudo porque são eles que vivem hoje neste mundo de amores, medos e vigilâncias tão líquidas; passíveis de  comprovações, contestações e de muitas dúvidas. Entendo que, estando diante deles todas as manhãs, deva compartilhar, ao menos, ideias que lhes possam ser úteis para este enfrentamento do mundo.

Inevitável indagar como nós, professores e adultos que somos, vêmo-nos diante destes jovens, numa sala de aula, se não for deste lugar de escuta ativa e atenta... Confesso que não vejo outra forma. E é por isso que, a esse ponto, autorizo-me a contar uma experiência recente com meus alunos pré-adolescentes. Uma experiência de empatia cognitiva, de raciocínio e, por isso tudo , de resiliência: 

“A aula era de português e a previsão era de fazer a correção de uma série de exercícios do livro didático (ah! Esse livro didático! Há tanto a se falar sobre ele, mas certamente não o farei neste texto). Recém-chegada à sala de aula, cumprindo o trajeto da porta à mesa do professor, pude ouvir as palavras de meu aluno, que pareciam ser o final de um pequeno desentendimento entre colegas. Como era de se esperar, a pergunta dele soou solitária, indicando que a resposta não viria, grande parte por causa da minha entrada repentina na sala: 

“Pare com isso! Você tem Down”? – esbravejou.

A organização da classe seguiu ruidosa e lenta – como de costume – mas desta vez para se disfarçar da incômoda pergunta e, é claro, da resposta que não veio. Nesse meio tempo, tive a oportunidade para pensar e me perguntar:

“Em qual território eu estou entrando?”

Se fosse há algum tempo, confesso, teria usado da minha respeitabilidade como professora para “colocar a casa em ordem”. Explico: de imediato, lançaria o tom de autoridade, iniciaria um discurso coerente e potente, e faria a única pergunta que me teria vindo à mente naquele instante:

“Vocês sabem do que estão falando?”

E, claro, teria obtido com facilidade um auspicioso e imediato silêncio. Entretanto, no caminho que percorri da porta à mesa, pensei. Pensei em Vygotsky1 e na aprendizagem mediada. Em Paulo Freire2 e na educação libertária. Em Piaget3 e na epistemologia genética.  E também na lógica clássica de Aristóteles4. Nos sofistas5 e também em Nettie Stevens6. Pouco antes de me sentar na cadeira, tive o último pensamento que me pareceu meio bobo – lembrei-me de Poirot (sim, aquele dos livros de Agatha Christie7). Estranha a mente que pensa e raciocina tão anacronicamente. Estranha e virtuosa.

Por conta disso, após o pequeno trajeto da porta à mesa, não falei. Apenas me sentei enquanto me vinha à mente a lembrança daquele casal adolescente trocando olhares, de mãos dadas, nas escadarias da Livraria Cultura – a imagem (e a experiência) de “Downs” para mim.

O som do silêncio vindo das palavras não ditas logo provocou meus ouvintes. Foi então que um dos alunos, já sentado no seu lugar disse à classe:

“Ei, pessoal! Acho que a gente não sabe o que está falando... Não é, professora?”

Não esbocei qualquer palavra. Tinha pensado em muitas delas  - no caminho entre a porta e a mesa. Limitei-me a respirar fundo e a manter o mais prolongado silêncio. Ainda me dei o tempo me deliciar com a memória dos adolescentes na escadaria... 

Mais uma vez, o livro não seria aberto naquele dia. Talvez nem no outro. 

E nem no outro.

Notas: ​

Vygotsky1, Paulo Freire, Piaget3; disponíveis em:https://www.educacao.cc/educacao/grandes-educadores-paulo-freire-jean-piaget-lev-vygotsky-e-outros/> Acesso em 15 fev. 2019.

Aristóteles4; disponível em: < https://www.pucsp.br/pos/cesima/schenberg/alunos/paulosergio/biografia.html> Acesso em 15 fev. 2019.

Os sofistas; disponível em: <https://www.significados.com.br/sofismo/> Acesso em 16 fev. 2019.

Nettie Stevens6; disponível em: “As cientistas”, Editora Blucher, 2017.

Agatha Christie; disponível em:<https://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805134&SecaoID=948848&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=608190> Acesso em 16 fev. 2019.

Helenice Schiavon - Professora, graduada em letras e em pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

No Comments

Post a Reply

WhatsApp chat