A parte que falta

A parte que falta

A parte que falta

Não fosse o início das aulas em minha escola, teria recaído em mim um desânimo sobre a humanidade. São eles, os alunos – ou antes – as crianças, adolescentes e jovens  que alimentam as almas adultas nesta vida. 

E afirmar isto não é um clichê, acreditem. É por causa das experiências com estes indivíduos que se nutrem, senão a necessidade mesma de vivermos, ao menos um motivo para nos sentirmos um pouco mais humanos. 

E, convenhamos, como tem sido difícil se sentir humano neste mundo! Não será preciso atravessar os mares ou cruzar as fronteiras para sentir de perto esta dificuldade. É claro que alhures não faltam exemplos: navios sem portos,  homens sem rostos, muros sem janelas ou portas, crianças sem pão e todo o tipo de seres que não são humanos...Difícil se sentir humano com os exemplos de fora, em que sempre há um dedo pronto para puxar o gatilho  - ou dedos para puxar o tapete. Mas, igualmente difícil é suportar os exemplos daqui. Isto dá uma desilusão, um cansaço...

Acho que são as escolas – em boa parte antiquadas e retrógradas – um dos poucos lugares em que resta um alento, seja porque ali estão crianças, adolescentes, jovens e adultos (do tipo especial), seja porque ali ainda é possível pensar sobre o impensável. Fora dali, sempre um pouco mais do mesmo: uma empatia dita afetiva e uma ética feita decreto.

Exemplos não faltam, daqui e dali. Eles rasgam à faca nossas tentativas de não desanimar com a vida: vales e samarcos, vajonts e joelmas nos rondam por detrás dos ombros, vis e traiçoeiras, por anos e anos a fio. Qual é o desalento da vez? Para onde vai a parte que falta, tirada à ferro, ou antes, à nióbio, indiferença e lama? Que parte é esta que falta e fotografa com a mesma compaixão a agonia do animal enlameado (que se não estivesse ali poderia estar no prato de alguns) e a honra dos homens chafurdados na lama, vivos ou mortos? Que parte é esta que falta e nos enche de uma compaixão anacrônica que nos faz chorar ao ver na Tv a cena que sempre se repete, num looping assassino? Que parte é esta que falta que não reconhece a corda que agora não enforca nem amarra, mas que puxa para a margem e para bem longe do rio de lama?

Não fosse o contato com os seres que habitam a escola (qualquer escola), recairia sobre mim um desânimo permanente sobre a humanidade. Porque cá dentro, diferente de lá, é possível pensar, sonhar, inferir e projetar ética – mesmo que baixinho, como uma prece ou como um soluço. Também é possível pensar com ciência (e o jogo de palavras não pode ser um acaso) sobre tudo aquilo que há neste mundo, proibindo qualquer tentativa de se brincar de deus. Aqui, posso pensar uma dor como uma dor e me orgulhar de agir com ética e empatia – prestando atenção para que esta última comece afetiva e me faça chorar, mas que, no momento seguinte se faça cognitiva – deixando-me pronta para agir.

“Qual a parte que falta?” 

Falta a parte que agora vive à margem...

“Ah, então é assim?”1

Que bom que retornaram as aulas. Assim, posso pensar na parte que falta em nós. Posso pensar no que deve ser feito para que Davis, Camilas e Marcelles – alguns nomes da lista da morte que sempre vem – possam se sentar tranquilos no refeitório, ou no banco do ônibus, do trem ou do trator, esperando o momento da vida que segue. Com os alunos, poderei olhar as fotografias destas e outras marianas e brumadinhos para não me esquecer das  partes que faltam, das presenças e das ausências. Com a ajuda deles, as crianças, os adolescentes e os jovens, posso pensar que o cabelo da moça, amarrado com laço de fita, sujo pela lama da morte que quase a engoliu ontem no rio, acordou limpinho hoje, porque é dia de festa. Que os humanos que rastejam como porcos no rio da morte, não buscam o fio atolado de vida e apenas acordarão mais cedo amanhã para se banhar nas suas águas. 

Com eles, lá na escola, posso pensar com o coração e não só para chorar, comover-me e arrepender-me. Lá, pensamos na parte que falta porque a escola é um lugar bom para se pensar em empatia e ética como ciências; tão urgente é preciso projetar cenários mais dignos e humanos nesta vida – sobretudo e a despeito.

Helenice Schiavon - Professora, graduada em letras e em pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

1. SHEL, Silverstein. A parte que falta. Companhia das Letrinhas, 2018.  Disponível em:        <https://www.youtube.com/watch?v=GFuNTV-hi9M > (Acesso em: 31 jan. 2019).

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